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ESCOLA PRIMÁRIA NA PRIMEIRA REPÚBLICA (1889-1930): subsídios para uma história comparada

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Descrição Rápida

José Carlos Souza Araújo, Rosa Fátima de Souza & Rubia-Mar Nunes Pinto - orgs.


Os capítulos deste livro ensejam múltiplas leituras. O leitor encontrará em cada um dos textos um conjunto de informações e análises sobre o processo histórico de configuração dos sistemas estaduais de ensino primário destacando o papel do Estado, a organização pedagógica das escolas e dados sobre a expansão do ensino e do financiamento da instrução pública. Tais estudos, ainda que não exaustivos, oferecem um quadro abrangente sobre a educação na Primeira República e poderão ser utilizados como fonte de consulta para subsidiar outras pesquisas. Vale assinalar a originalidade de sínteses dessa natureza para alguns estados que possuem poucos estudos sobre o tema. De fato, boa parte dos estudos já produzidos refere-se a períodos mais restritos e a recortes temáticos mais específicos. Dessa maneira, o leitor poderá obter uma visão de conjunto sobre as peculiaridades, semelhanças e diferenças no modo de circulação e apropriação da escola graduada e das outras modalidades de escolas primárias, como as escolas reunidas e isoladas. Poderá perceber como se foram construindo, no início do século, representações sobre a importância social da escola e diversos modos de classificação dos estabelecimentos de ensino estabelecendo diferenciações educacionais e sociais. No cotejamento desse conjunto de dados e análises, poderá também traçar uma interpretação mais ampla sobre a história da escola primária no país.


Esta edição recebeu apoio da Universidade Federal de Goiás – UFG por meio da Fundação de Apoio à Pesquisa – FUNAPE.


 


 






 


 


Apresentação: 

A INSTITUCIONALIZAÇÃO DA ESCOLA PRIMÁRIA NO BRASIL (AC, BA, GO, MA, MT, MG, PI, SP, SE E RN, 1889 – 1930)

José Carlos Souza Araújo
Rosa Fátima de Souza
Rubia-Mar Nunes Pinto



Os textos reunidos neste livro constituem resultados de pesquisa de um dos grupos temáticos (GT4 – Institucionalização da Escola Primária) do Projeto Integrado Por uma teoria e uma história da escola primária no Brasil: investigações comparadas sobre a escola graduada (1870 – 1930).
Esse projeto foi financiado pelo CNPq (Edital Universal/2007 – Faixa C) e incidiu sobre a história do ensino primário de 15 estados brasileiros - Acre, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba, Sergipe, Bahia, Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso, Goiás, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul envolvendo a participação de 27 pesquisadores doutores, pertencentes a 17 Programas de Pós-Graduação em Educação de várias instituições universitárias, além de 9 doutorandos, 17 mestrandos, 18 bolsistas de iniciação científica e 1 bolsista de apoio técnico em informática.
Os objetivos propostos compreenderam: a) perceber a constituição da escola graduada no âmbito da circulação dos modelos educacionais; b) verificar a organização e o funcionamento das escolas primárias nos diversos estados brasileiros; c) interrogar acerca da permanência de sentidos (sociais, educacionais e simbólicos) associados aos grupos escolares nas lutas de representação sobre a escola e d) reunir fontes documentais de diferentes estados do país visando a subsidiar a investigação proposta e fomentar novos estudos histórico-comparativos. 
Os grupos escolares foram tomados, portanto, como eixo da pesquisa pela importância que desempenharam no processo histórico de modernização e de democratização da escola pública primária no país. Organizados nos moldes da escola graduada, isto é, adotando os pressupostos da racionalização pedagógica como a classificação dos alunos pelo nível de conhecimento em agrupamentos supostamente homogêneos, a divisão do trabalho docente, a constituição das classes, a correspondência entre classe e série, o funcionamento em edifício com várias salas de aula, a graduação dos programas de ensino e a ordenação da jornada escolar, os grupos foram concebidos como escolas modelares. Vários estados brasileiros buscaram implantar essa escola primária moderna ao longo da Primeira República: em São Paulo, em 1893; no Rio de Janeiro, em 1897; no Maranhão e no Paraná, em 1903; em Minas Gerais, em 1906; na Bahia, Rio Grande do Norte, Espírito Santo e Santa Catarina em 1908; no Mato Grosso em 1910; Sergipe, em 1911; no território do Acre, em 1915, na Paraíba em 1916, em Goiás, 1918 e no Piauí em 1922. Por isso, pode-se dizer que a história dos grupos escolares se confunde com a história do ensino primário no Brasil e encontra-se no centro do processo de institucionalização da escola pública no país.
A produção marcadamente regional sobre o tema intensificada na última década vinha demandando exames mais acurados sobre a circulação e apropriações dessa modalidade de escola em âmbito nacional. Desse modo, a perspectiva comparada adotada no Projeto Integrado de pesquisa tem buscado contribuir para uma interpretação mais acurada e global sobre a constituição da escola primária no país.
Para viabilizar a análise comparada, a equipe de pesquisadores organizou-se em 4 grupos temáticos: GT1 – Estudo do significado, das iniciativas de adoção e das práticas geradas pelo método intuitivo e seus desdobramentos e inflexões a partir da difusão da escola nova; GT2 – Exame da materialidade da escola primária graduada pelo estudo da cultura material escolar; GT3- Análise das representações sociais sobre os grupos escolares; GT4 – Estudo da institucionalização da escola graduada nos vários estados do Brasil considerando as reformas educacionais, a expansão das instituições escolares, a organização pedagógica e a relação entre os vários tipos de escolas primárias (escolas isoladas, reunidas, grupos escolares e escolas municipais, estaduais e privadas). Cada grupo temático abrangeu um conjunto de estados para a investigação.
As categorias de análise e as fontes de pesquisa foram definidas no âmbito de cada grupo temático tendo em vista os objetos de estudo e as características da documentação dos acervos regionais e das práticas de investigação dos pesquisadores. 

O percurso da pesquisa



No âmbito do GT4, a investigação envolveu 11 estados da federação – Acre, Bahia, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Piauí, Rio de Janeiro, São Paulo, Sergipe e Rio Grande do Norte. Os procedimentos de pesquisa foram definidos e discutidos nas reuniões de trabalho realizadas pelo grupo constituído por 15 pesquisadores doutores. O estudo em perspectiva comparada constituiu-se em um desafio tendo em vista as especificidades dos processos históricos regionais. O GT4 optou por trabalhar com dois tipos de fontes documentais comuns às diferentes localidades abrangidas pela pesquisa: a legislação do ensino primário (leis, decretos, regimentos e regulamentos) e as mensagens dos presidentes dos Estados envolvidos na pesquisa. Além do exame dessas fontes, o grupo se propôs reunir a documentação utilizada no estudo para a constituição de um acervo de fontes digitais. 
O recorte temporal foi delimitado no período da Primeira República com base no critério da política educacional, isto é, consideraram-se as tendências predominantes nas políticas estaduais e nacionais para o ensino primário. Em decorrência da descentralização marcante nesse período, cada unidade federativa pôde configurar o seu sistema de instrução pública, enquanto a partir dos anos 30 inicia-se o processo de crescente centralização da educação nacional com a intervenção do governo federal.
A definição dos termos da comparação foi fruto de discussão aprofundada sobre as finalidades sociais do ensino primário, sobre o papel do Estado em relação à instrução Pública na Primeira República e sobre o significado da modernização representada pelos grupos escolares, tendo em vista as diferenças na expansão dessa modalidade de escola nas diferentes unidades federativas do país e sua indissociável relação com as demais modalidades de escolas primárias existentes em cada região. Considerando a complexidade dos aspectos envolvidos na problemática da institucionalização da escola primária, os pesquisadores do GT4 definiram para a comparação quatro categorias de análise: 
a) Republicanismo/Federalismo (discussão sobre a relação entre estado e sociedade, o papel do Estado em relação à educação pública, a questão dos municípios)
b) Modelo/modalidade de escola (o grupo escolar em relação às outras escolas primárias). Análise da organização do trabalho pedagógico entendido como a organização administrativa, as séries, o currículo, a constituição das classes, a avaliação etc. 
c) Expansão da escolarização primária.
d) Financiamento/orçamento (análise do financiamento da escola primária dentro do orçamento maior do Estado).
Na etapa seguinte, os pesquisadores ficaram encarregados de produzir estudos sobre a institucionalização da escola primária em seus respectivos estados contemplando as quatro categorias delimitadas para a comparação de modo a subsidiar a próxima etapa da pesquisa, isto é, a comparação entre os estados.
Esses estudos subsidiários compõem esta coletânea. A ordem de apresentação dos textos na coletânea não é fortuita. Ela segue a ordem cronológica da criação legal dos grupos escolares nos 11 estados investigados, conforme se pode perceber no quadro abaixo, e termina com uma reflexão sobre as tensões no processo histórico entre a universalização das ofertas educacionais e a permanência das desigualdades. A datação no título dos capítulos decorre, portanto, da data de institucionalização da escola graduada em cada estado investigado.










Quadro 01 – Estados brasileiros e instauração
dos grupos escolares


Estado Ano de institucionalização jurídica dos grupos escolares
São Paulo 1893
Rio de Janeiro 1897
Maranhão 1903
Minas Gerais 1906
Rio Grande do Norte 1908
Mato Grosso 1910
Piauí 1910
Sergipe 1911
Bahia 1913
Território do Acre 1915
Goiás 1918
Elaborado por SOUZA; ARAUJO (2010)


O volume se inicia com o texto de Rosa Fátima de Souza analisando as sucessivas reformas da instrução pública implementadas no estado de São Paulo no período de 1893, ano de criação dos grupos escolares nesse estado, a 1927, quando ocorreu a última reforma da instrução pública no período da Primeira República. Sem desconsiderar a produção existente sobre o tema, a autora faz um balanço das continuidades e descontinuidades das políticas dos governos paulistas em relação ao ensino primário. Nesse sentido, problematiza o modo pelo qual a educação paulista tornou-se centro de referência da modernização educacional no país pela inovação adotada em relação aos métodos e processos de ensino e pela criação de novas instituições educacionais, como por exemplo, os grupos escolares. A expansão do ensino primário por meio dos grupos escolares foi uma tendência marcante na política educacional paulista, com exceção do período de vigência da denominada Reforma Sampaio Doria (1920 – 1924) quando foi priorizada a expansão das escolas reunidas e o desdobramento das escolas isoladas. Em 1898 havia 38 grupos escolares no estado de São Paulo com 11.453 alunos. Em 1929, esse número havia se elevado para 297 grupos escolares com 191.320 alunos matriculados. São Paulo possuía então a maior rede de grupos escolares do país. O investimento público em educação foi significativo, mas não suficiente para a universalização do ensino. Na análise das modalidades de escolas primárias existentes no estado, a autora assinala a diferenciação em relação aos programas de ensino, ao tempo de duração do curso primário e nas representações sobre a relevância e qualidade dos diferentes tipos de escolas. Desse modo, a análise aponta as múltiplas faces do aparelho escolar paulista marcado pela modernização, mas também por ausências, exclusões e diferenciações.
O capítulo sobre a escola primária no Maranhão, de autoria de Diomar das Graças Motta et alii, ressalta a profusão de leis educacionais, em número de 59, no período da Primeira República. A estrutura desse capítulo se envolve, além da necessária contextualização, com as modalidades de escola primária, sua organização pedagógica, com o papel do Estado, com as questões relativas ao financiamento, além da expansão escolar primária. A população do Estado em apreço revela-se com 430.854 habitantes em 1890, porém em 1920 já registrava, conforme censo, 874.337 habitantes (São Luis contava então com 52.929), aumento que ultrapassa 100% em 30 anos. Somente tal dimensão acarreta questões muito significativas em relação ao financiamento e à expansão escolar. Em 1920, os percentuais de analfabetismo atingiam a casa dos 81%. E os grupos escolares instalados em meados dos anos de 1920 atingiam a casa dos 15% em relação ao número de municípios.
O objeto do capítulo, de autoria de José Carlos Souza Araujo, é compreender o discurso republicanista presente nas Mensagens dos Presidentes de Estado de Minas Gerais, em número de 41, entre 1891 e 1930, as quais envolvem quinze diferentes Presidentes de Estado. Além da necessária contextualização sobre a escola primária no Brasil, o capítulo em pauta situa as origens do republicanismo em contexto europeu, bem como o seu enraizamento no Brasil, particularmente através do Manifesto Republicano de 1870. Cabe, por conseguinte, compreender que tais Mensagens são expressão de prática social, e como tais manifestam um pensamento político republicano e federativo em seu andamento no período de 1891 a 1930. Através delas, tal pensamento político – a um tempo utópico e real ante os problemas brasileiros de então – conjuga, de forma linguística, uma prática discursiva, porém a expressar uma estrutura social. Em conclusão, as dimensões escolares se explicitam pelas mesmas entre o possível e o real, através das categorias encontradas nas Mensagens em apreço: república, federação, constituição, liberalismo, cidadania, educação, liberdade, igualdade, justiça, democracia, progresso e civilização são apenas as questões de fundo que estão promovendo a organização do trabalho pedagógico para e na escola primária, porém não sem ela – lugar de organização do trabalho didático - para a construção das utopias republicanas. 
O texto de autoria de Marta Maria de Araújo e Marlúcia Menezes de Paiva mostra as diferentes etapas de constituição do aparelho de ensino primário no estado do Rio Grande do Norte. A modernização pedagógica pelo método intuitivo circulou na província no final do Império. A primeira reforma republicana da instrução primária buscou adotar padrões inovadores como o método simultâneo e a ampliação dos programas de ensino. As autoras mostram como a expansão das escolas primárias ocorreu pelo concurso de vários setores sociais, destacando-se o poder público estadual, as municipalidades e a iniciativa particular. A criação dos grupos escolares ocorreu no governo de Alberto Frederico de Albuquerque Maranhão em 1908 e nos anos seguintes o entusiasmo por essa modalidade de escola primária prevaleceu nas políticas educacionais. No entanto, destacam a ocorrência de um deslocamento no início dos anos 20, no governo de Antonio José de Mello Souza, quando a ênfase para a expansão da educação elementar passa dos grupos escolares para as chamadas escolas rudimentares – ensino primário funcionando em casas docentes ministrando as aprendizagens básicas da leitura, escrita e cálculo. A diferenciação entre o grupo escolar e a escola rudimentar se intensifica pelas mudanças nos programas de ensino e no tempo de duração do ensino primário – 4 anos nos grupos escolares e 2 anos nas escolas rudimentares. Em 1929 havia 22 grupos escolares em funcionamento no Rio Grande do Norte com cerca de 3.832 crianças matriculadas. Além desses estabelecimentos havia 129 escolas reunidas e 118 rudimentares com 6.922 alunos matriculados, o que atesta a importância das demais escolas primárias na escolarização da infância.
Elizabeth Figueiredo de Sá tem por objeto a escola primária em Mato Grosso. Destaca ela que o Estado, ao final do século XIX, continha 1.477.041 km2, o de maior extensão territorial do país àquela altura. A ausência de professores, de alunos, de materiais e de prédios escolares punha-se como obstáculo aos projetos educativos que viessem a atender as aspirações pelo progresso e pela civilização. É sob esse pano de fundo que as reformas destinadas à instauração da política em torno dos grupos escolares se dão em 1910. Porém os temas da laicidade, da gratuidade, da obrigatoriedade do método intuitivo já estavam presentes desde a última década do século XIX. Destaca a autora a ação de normalistas formados em São Paulo atuantes nas primeiras décadas do século XX em vista da ordenação da escola primária. Também em Mato Grosso, os ‘palácios’ mineiros se fazem presentes através da locução ‘templos do saber’ para se referir aos grupos escolares. Certamente, a centralidade cabe aos conteúdos, aos métodos, à organização do trabalho pedagógico e didático, porém a cidadania, o progresso e a civilização estão a nortear, em termos de finalidades sociais, a escola primária matogrossense.
Em relação ao estado do Piauí, Maria do Amparo Borges Ferro ressalta a precariedade da instrução pública no século XIX. No entanto, no início do período republicano, a autora identifica uma crescente dinamização da educação primária que se manifesta na atuação dos municípios e do poder público estadual, além das iniciativas de particulares e da igreja. A reforma da instrução pública de 1910 (Lei n° 548, de 30 de março de 1910) estabeleceu que o ensino público estadual seria ministrado em escolas isoladas e grupos escolares. Contudo os primeiros grupos escolares foram instalados somente na década de 20, prevalecendo a opção dos governos do estado pelas escolas reunidas e isoladas consideradas de menor custo e mais adequadas às características e necessidades do Estado. Apesar de o discurso educacional reiterar continuamente a defesa da modernização dos métodos de ensino e das instituições escolares, a expansão da instrução primária foi lenta. Como afirma a autora, em 1930, de acordo com a mensagem enviada pelo Presidente do Estado à Assembléia Legislativa, as matrículas no ensino primário no estado do Piauí chegavam a 5.500 alunos nas escolas estaduais e naquelas mantidas pelos municípios. O ensino primário era ministrado em 20 grupos escolares e em 82 escolas isoladas.
Segundo o autor, Jorge Carvalho do Nascimento, o objeto de seu capítulo é a escola primária sergipana, e visa "[...] compreender o impacto causado pelas reformas educacionais no Estado, os modelos de escola adotados, a nova organização pedagógica, o processo de expansão da rede escolar e os mecanismos de financiamento adotados pelos governantes ‘[...]". A reforma que institui a escola primária diferenciada, expressa pelos grupos escolares, instaura-se em 1911, ano em que é inaugurado o grupo escolar modelo de Aracaju, SE. As escolas isoladas de então somavam 179. Desde essa reforma, também as escolas reunidas constituíram-se em outra modalidade de nível primário. Além disso, desenvolve o autor uma análise das várias reformas anteriores em período republicano. Revela também observações sobre os descaminhos do método intuitivo na escola primária sergipana, sobre a padronização dos livros didáticos, debates sobre edifícios escolares apropriados, sobre a importação de carteiras dos Estados Unidos da América e sobre as práticas de formação cívica. Ao final dos anos de 1920, estavam instalados 14 grupos escolares, sendo 5 na capital e 9 em cidades interioranas principais. Mas as escolas isoladas também se multiplicaram significativamente até o final dos anos de 1920.
No capítulo seguinte, A educação primária no estado da Bahia, 1889-1930, Lucia Maria da Franca Rocha ressalta os desafios enfrentados para a expansão da escola primária trazendo também elementos sobre a organização pedagógica dos grupos escolares. Segundo a autora, não houve no "panorama da instrução primária pública baiana […] nenhuma mudança significativa" nos primeiros anos da República mantendo-se praticamente inalterado o número de crianças matriculadas e frequentes. Neste sentido, a instabilidade da política estadual no início do regime republicano e divergências entre estado e municípios na criação e manutenção de escolas primárias são assinaladas como importantes pontos de tensão para a expansão deste nível de ensino. Sobre os grupos escolares, Maria Lucia afirma que, na Bahia, este modelo de escola organizou-se em um modelo distinto do grupo escolar paulista constituindo-se unicamente como ‘reunião de escolas’ primárias (elementares, médias e superiores). Esta forma de organização do grupo escolar perdurou desde sua criação em 1895 até a reforma Anísio Teixeira, em 1925. Fundada nas Lições das Coisas, a escola primária baianas foi investida da função de educar a inteligência, fortalecer o corpo e orientar a vontade livre da criança para o bem. Mas, a despeito das mais de cem (100) "leis minuciosas’ e das constantes reformas educacionais, o avanço qualitativo e quantitativo da escola primária na Bahia somente foi intensificado a partir de 1925, ou seja, a partir da reforma Anísio Teixeira.
Andréa Maria Lopes Dantas e Elizabeth Miranda de Lima fazem a análise da expansão e institucionalização da escola primária no então Território do Acre destacando dois momentos: de 1904 a 1920 quando o Território foi dividido em quatro departamentos administrativos tendo Manaus (Amazonas) como centro de informações e ordens do governo federal e; a partir de 1920 quando ocorreu a unificação e a instalação do governo territorial em Rio Branco, tornada então capital do Território. A partir de então, as escolas primárias foram criadas e mantidas pelas prefeituras municipais e pelo governo territorial. As autoras afirmam que a difusão da escola primária era uma das principais preocupações do governo territorial acreano que via na expansão da instrução primária pública um importante fator para a consolidação do Acre como uma fração da república brasileira. Por isso a escola primária deveria proporcionar formação moral e patriótica além da inculcar hábitos saudáveis. Asssinala-se ainda que as maiores dificuldades para a expansão da escola primária no Acre eram a dispersão da população pelos seringais e a extensão territorial. Como uma tentativa de avançar sobre estes problemas, são criadas as Escolas Ambulantes. A respeito dos grupos escolares, a análise mostra que o primeiro foi criado e entrou em funcionamento em 1915. Mas o alto custo com a criação e manutenção desses estabelecimentos foi motivo de debates e divergências entre governantes municipais e governo territorial já que alguns prefeitos das cidades acreanas acreditavam que o esforço para a criação de grupos escolares produzia o efeito de esvaziamento de recursos para as escolas que não se enquadrassem na forma escolar moderna.
Para Rubia-Mar Nunes Pinto, "[...] o ano de 1918 é um momento que a recente historiografia da educação goiana considera como sendo de grande importância, pois, a partir daí, o governo estadual assumiu definitivamente a responsabilidade pela instrução pública retirando a autonomia dos municípios para criar e manter escolas primárias". É também o ano da criação dos grupos escolares, bem como a gênese do escolanovismo em terras goianas. Porém, as esferas estadual e municipal estão ali bem caracterizadas desde a constituição goiana de 1891, ora cabendo a uma, ora a outra a responsabilidade pela instrução primária. Seu capítulo apresenta, também, dados estatísticos no decorrer da Primeira República, bem como uma análise das diferentes reformas educacionais do período. Nos anos de 1920 "[...] o crescimento na quantidade de escolas foi significativo: de 21 escolas primárias em 1917 para 186 em 1930 como também se elevou o número de crianças frequentes". No entanto, a criação de grupos escolares restringiu-se ao sul, sudeste e sudoeste do estado de Goiás. Associados a tal processo de análise da escola primária, a autora também traz aspectos relativos ao financiamento, que explicitam os problemas relativos à mesma, antes de 1918 e depois até 1930.
Maria Cristina Soares de Gouvea e Alessandra Frota Martinez de Schueler são autoras de uma análise intitulada Condições de Instrução da Infância: entre a universalização e a desigualdade. E o seu objeto está vinculado a estes dois termos: de um lado a universalização da escola, contextualmente assumida através de "[...] um ideário valorizador da cultura escrita e de uma nova ética do trabalho, numa comunidade imaginada, a nação, bem como a aquisição de códigos de conduta afirmados como civilizados". Compreendem a Primeira República como o ‘mais longo período de estabilidade política’, e o que ‘mais se distanciou da democracia’ e, por conseguinte, da cidadania. Em suas considerações sobre o projeto republicano de instrução e a organização da escola primária, inicia pelo relevo ao analfabetismo, conforme censos de 1872 e de 1900. Daí a acertada sustentação de que a universalização da escola elementar tenha sido precária, o que promoveu a desigualdade. Ressalta, entre outros aspectos, que os contornos federativos da república brasileira nortearam a responsabilização da instrução primária aos estados e, quando não, destes para os municípios. Levem-se também em conta, nesse capítulo, os aspectos pontuais relativos às relações de gênero, à composição étnica da população escolar, à contribuição dos imigrantes que contavam percentualmente com índices mais altos de letramento; à origem social dos alunos. Conclusivamente, sustentam que "[...] a histórica desigualdade no acesso à instrução no Brasil constitui resultado das desigualdades não apenas econômico-sociais, mas também de diversidades regionais, étnicas e de gênero entre as diferentes populações. Têm-se, ainda, como resultante, condições históricas também desiguais de acesso à cidadania. Cabe, porém, ter em vista que ainda são escassas as pesquisas que se dedicam a investigar a dinâmica social brasileira, considerando as lutas históricas dos variados grupos sociais pela educação e a constituição de outros espaços de afirmação da cidadania não atrelados à instrução escolarizada formal". 
Os capítulos deste livro, Escola Primária na Primeira República (1889 – 1930): subsídios para uma história comparada ensejam múltiplas leituras. O leitor encontrará em cada um dos textos um conjunto de informações e análises sobre o processo histórico de configuração dos sistemas estaduais de ensino primário destacando o papel do Estado, a organização pedagógica das escolas e dados sobre a expansão do ensino e do financiamento da instrução pública. Tais estudos, ainda que não exaustivos, oferecem um quadro abrangente sobre a educação na Primeira República e poderão ser utilizados como fonte de consulta para subsidiar outras pesquisas. Vale assinalar a originalidade de sínteses dessa natureza para alguns estados que possuem poucos estudos sobre o tema. De fato, boa parte dos estudos já produzidos refere-se a períodos mais restritos e a recortes temáticos mais específicos. Dessa maneira, o leitor poderá obter uma visão de conjunto sobre as peculiaridades, semelhanças e diferenças no modo de circulação e apropriação da escola graduada e das outras modalidades de escolas primárias, como as escolas reunidas e isoladas. Poderá perceber como se foram construindo, no início do século, representações sobre a importância social da escola e diversos modos de classificação dos estabelecimentos de ensino estabelecendo diferenciações educacionais e sociais. No cotejamento desse conjunto de dados e análises, poderá também traçar uma interpretação mais ampla sobre a história da escola primária no país. 


REFERÊNCIAS

SOUZA, Rosa Fátima de; ARAUJO, José Carlos S. História comparada da escola primária no Brasil (1870-1950). Anais do VIII Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação, São Luis, MA, p.1-13, 2010.

SHUELER, A. F. M. "Grandeza da Pátria e Riqueza do Estado". Expansão da escola primária no Estado do Rio de Janeiro (1893 – 1930). Revista de Educação Pública (UFMT). Cuiabá, v. 19, p. 535 – 550, 2010.

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SUMÁRIO

  • APRESENTAÇÃOA institucionalização da escola primária no Brasil (AC, BA, GO, MA, MT, MG, PI, SP, SE E RN, 1889 – 1930) José Carlos Souza Araújo, Rosa Fátima de Souza e Rubia-Mar Nunes Pinto
  • SÃO PAULO, 1893
  • As escolas públicas paulistas na Primeira República: subsídios para a história comparada da escola primária no Brasil  Rosa Fátima de Souza 
  • MARANHÃO, 1903
  • O estado do Maranhão e a institucionalização da escola graduada na Primeira República Diomar das Graças Iran de Maria Leitão Nunes, Acildo Leite da Silva e Elisangela Santos de Amorim
  • MINAS GERAIS, 1906
  • Republicanismo e escola primária nas Mensagens dos Presidentes de Estado de Minas Gerais (1891-1930) José Carlos Souza Araujo
  • RIO GRANDE DO NORTE, 1908
  • Que projetos republicanos de escola primária? (Rio Grande do Norte, 1907-1930) Marta Maria de Araújo e Marlúcia Menezes de Paiva
  • MATO GROSSO, 1910
  • A expansão do ensino primário em Mato Grosso na Primeira República Elizabeth Figueiredo de Sá 
  • PIAUÍ, 1910
  • A escola primária do Piauí Maria do Amparo Borges Ferro 
  • SERGIPE, 1911
  • Notas para uma reflexão acerca da escola primária republicana em Sergipe (1889-1930) Jorge Carvalho do Nascimento
  • BAHIA, 1913
  • A educação primária no estado da Bahia (1889-1930) Lúcia Maria da Franca Rocha
  • ACRE, Território do, 1915
  • Da riqueza do território à grandeza moral e cultural dos habitantes: a implantação da educação primária no Acre Território (1905-1930) Andréa Maria Lopes Dantas e Elizabeth Miranda de Lima
  • GOIÁS, 1918
  • Escola primária em Goiás na Primeira República: tensões e distensões de um ‘jogo de empurra’ Rubia-Mar Nunes Pinto
  • BRASIL
  • Condições de instrução da infância: entre a universalização e a desigualdade Maria Cristina Soares de Gouvea e Alessandra Frota Martinez de Schueler

 

Informações Adicionais

Autor (es) / Organizador (es) José Carlos Souza Araújo, Rosa Fátima Souza & Rubia-Mar N. Pinto - orgs.
Editora (s) Junqueira&Marin Editores
ISBN 978-85-86305-99-3
Área (s) / Assunto (s) Escola primária, História da educação, Pesquisa em educação, Ensino de história, História comparada, política educacional.
Edição / Ano 1ª / 2012
Nº de Páginas 352
Acabamento / Formato brochura - costurado e colado / 14cm x 21cm

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