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INFÂNCIA (IN)VISÍVEL

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Vera M. R. de Vasconcellos & Manuel J. Sarmento - orgs.


Este livro parte do ponto de vista das crianças, por isso tem como título um jogo de linguagem que brinca com as palavras, em que as possibilidades de visibilidade e de invisibilidade aparecem presentes na constituição de várias concepções de infâncias e diferentes modos de ser criança em instituições e práticas, de dois países irmãos: Brasil e Portugal. 
Nós, os organizadores do presente trabalho, escolhemos nomeá-lo Infância (in)visível porque, seguindo Postman (1999), suspeitamos que, algumas vezes, as sociedades esquecem que precisam de suas crianças e que para tê-las há de se respeitar o direito de viver a infância. Insistimos em lembrar e subverter a ótica desse duplo esquecimento, criando condições decisivas de estabelecimento de diálogo entre diferentes áreas do conhecimento científico.


 






Apresentação: 


Infâncias e crianças visíveis

Vera Maria Ramos de Vasconcellos

"A criança não sabe senão viver a sua infância. Conhecê-la pertence ao adulto. Mas o que vai prevalecer neste conhecimento: o ponto de vista do adulto ou da criança?" (Wallon, 1989, p. 9)

Este livro parte do ponto de vista das crianças, por isso tem como título um jogo de linguagem que brinca com as palavras, em que as possibilidades de visibilidade e de invisibilidade aparecem presentes na constituição de várias concepções de infâncias e diferentes modos de ser criança em instituições e práticas, de dois países irmãos: Brasil e Portugal. 
Nós, os organizadores do presente trabalho – Vera Maria Ramos de Vasconcellos (Uerj-Br) e Manuel Jacinto Sarmento (Universidade do Minho-Pt) –, escolhemos nomeá-lo Infância (in)visível porque, seguindo Postman (1999), suspeitamos que, algumas vezes, as sociedades esquecem que precisam de suas crianças e que para tê-las há de se respeitar o direito de viver a infância. Insistimos em lembrar e subverter a ótica desse duplo esquecimento, criando condições decisivas de estabelecimento de diálogo entre diferentes áreas do conhecimento científico.
Os artigos por nós reunidos foram produzidos por pesquisadores brasileiros e portugueses, de formações acadêmicas e experiências profissionais diversas, que têm em comum a escolha da Educação como campo de trabalho e com isso a necessidade de compreender os modos de vida próprios das crianças em diferentes culturas, além da curiosidade de decifrar as estratégias utilizadas por elas para lidar com um mundo próprio das crianças, sem desconectá-lo do mundo dos adultos. 
Nossa questão comum é como vivem e pensam as crianças sobre elas mesmas e sobre as várias instâncias que lhes conferem status social. Insistimos em entender as crianças e seus mundos a partir de seus próprios pontos de vista. 
Nossas perspectivas estão ancoradas em teorias e pesquisas de diferentes áreas – pedagogia, sociologia, psicologia, geografia e antropologia – que nos remetem à Infância, como conceito socialmente variável no espaço e no tempo, e à Criança, como sujeito encarnado, contextualizado. Falamos de infâncias diferenciadas e de crianças curiosas, investigativas, perspicazes e sofridas, evitando "categorias genéricas" que só enxergam sua incompletude ou imaturidade biossociopsíquica, transformando-as em simples objeto de investigação. Buscamos conhecê-las por meio do que elas mesmas expressam, observando a vitalidade de suas ações em diferentes contextos da contemporaneidade. 
O mundo dos protagonistas dos estudos aqui apresentados é heterogêneo, como heterogêneas são as perspectivas teóricas utilizadas para entendê-los. As crianças contemporâneas estão em contato – de forma direta ou não – com várias realidades e delas apreendem valores e estratégias de compreensão de mundo e de formação de suas próprias identidades pessoal e social. Vivem e interagem, intensamente, com outras crianças, partilhando experiências, quase sempre em situações mediadas por adultos, mas fazem-no de forma singular, ressignificando a cultura que lhes é apresentada, apropriando-se, reproduzindo e reinventando o mundo, dando sentido à riqueza que a língua portuguesa nos confere com o étimo da palavra latina "criança" ("creantia"): irmã de criatura, criadora, inovadora, possibilidade constante de reinvenção da vida.
Apesar de os estudos apresentados fazerem uso de diferentes fontes teóricas e adotarem abordagens metodológicas diversificadas, todos resultam de trabalhos de investigações qualitativas, em que a infância e as crianças estão no centro da indagação, portanto são os interlocutores privilegiados e co-autores nas/das pesquisas.
No pano de fundo de cada trabalho aqui relatado configuram-se as dimensões culturais e políticas das ações humanas, próximas e ao mesmo tempo distintas, vividas em nossos países. De imediato, identificamos que a perspectiva de educação que adotamos implica a valorização da cultura local; ao mesmo tempo, porém, reconhece os ritos, ritmos e modos próprios de desenvolvimento de cada criança e a complexidade dos mundos sociais onde expressam suas singularidades. Em nosso entender, isso preserva condições de existência e dignidade à criança, que é autor e ator de seu próprio processo de desenvolvimento, aprendizagem, sociabilidade e individuação. 
Todos os trabalhos têm como perspectiva política o reconhecimento e o respeito às diferentes formas de expressão e fala das crianças, que lhes dão marca de pertencimento às culturas e aos mundos plenos de valores e de sentidos, historicamente produzidos e socialmente marcados, e que elas, ao simples nascer, integram, ao mesmo tempo que os modificam. As crianças aqui protagonistas são oriundas de contextos socioculturais diversos, que as constituem e por elas são constituídos. Por isso, nosso intuito neste livro foi ressaltar suas diferentes linguagens, memórias, vivências e modos de subjetivação.
Valorizamos as expressões utilizadas por elas em interação com seus outros sociais, ouvindo-as e vendo-as como sujeitos pertencentes e produtores de lugares e culturas, não só nas pesquisas aqui elencadas como na vida. Entendemos que é no interior desses complexos modos de organização e produção cultural que a "infância" passa a adquirir contornos mais nítidos, sendo neles e por eles construída, destruída (muitas vezes) e reinventada. Para muitos, tal processo se apresenta marcado por uma espécie de invisibilidade, fazendo com que a segmentação da vida em etapas e a própria idéia de infância sejam admitidas como "naturais", como uma espécie de fatalidade biológica, e não como um artefato social. 
As infâncias aqui retratadas superam a visão tradicional de simples etapa da vida, pois as crianças são, sim, sujeitos plenos de direito e informantes competentes de suas histórias singulares, que, com especificidades próprias, expressam variadas dimensões culturais, presentes em toda ação/atividade humana. Procuramos, no conjunto, facultar aos leitores uma diversidade de horizontes teóricos e suas múltiplas manifestações, no propósito de tornar cada vez mais visíveis nossas parceiras e co-autoras – as crianças – e a complexidade das realidades nas quais estão presentes essas diferentes infâncias.
O livro inclui um conjunto de temas que tratam de processos de apropriação de conhecimentos e desenvolvimento/produção de subjetividades em situações sociais quase sempre educativas, mas não necessariamente escolares. Reconhecemos as crianças e suas relações sociais, observando-as transitando pelos diversos discursos por elas adotados. Refletimos sobre eles e as percebemos como sujeitos do conhecimento e, portanto, em condições de atuar criticamente nos modos de pensar e de produzir lugares para elas próprias. Os textos se empenham em problematizar temas como: espaço/lugar, movimento, brincadeira, linguagem, cultura, subjetividade, cidadania, interação, construção do conhecimento do mundo e de si, em relações com espaços públicos de ensino, saúde e cuidados. 
Investigam-se modos de subjetivação e processos de aprendizagem/construção de crianças em situações escolares e não-escolares, indo-se na contramão dos esforços de naturalização da vida e da infância. Para tanto, trazemos à cena instituições, sujeitos e práticas dos dois países, que, ao longo do tempo, por meio de relações planejadas (algumas) e imprevisíveis (outras), têm agido de forma interessada na produção de uma determinada representação acerca da vida.
Procuramos expor discursos, ações e práticas educativas (institucionalizadas ou não), existentes em diversas realidades, garantindo a visibilidade de crianças que têm suas histórias ocultadas em comunidades distintas e muitas vezes esquecidas (indígena, cigana, sem-terra, periferia urbana, de abrigo, hospitalar e educacional), no ideário das pesquisas oficiais. Os dez artigos apresentados não têm um propósito orgânico e unificador, não visam acordos ou consensos sobre as questões da Infância; ao contrário, não nos afastamos da diversidade de idéias, nem mesmo das divergentes concepções, próprias à lógica que não preza o pensamento linear e único. Atentos que somos à infinitude de abordagens que falam sobre as crianças, mas que pouco falam com as crianças, decidimos transgredir essa norma, conectando discursos voltados a assegurar visibilidade às numerosas formas de organização de pensamentos e ações das crianças.
Por ser um livro formado por pesquisas desenvolvidas em diferentes contextos espaciais, em vários momentos os escritos traduzem as diversidades constitutivas das interações geográficas, históricas e sociais. O leitor mais atento observará que mesmo as escritas, algumas vezes, podem parecer diversas, já que, apesar de fazermos uso do mesmo idioma, os sentidos que damos às palavras nem sempre coincidem. Amiúde, recriamos ditos antigos ou os reintegramos, dando nova formação à rica língua portuguesa, tão múltipla e tão una.
Assim, o mérito desta obra é ser um esforço de diálogo de autores de formações diversas, oriundos de vários campos de conhecimento, com a Educação e dela com as diferentes infâncias, que tem no abandono e no isolamento de suas comunidades mais pobres outro cerne de nossa linha preferencial de intervenção. Buscamos trazer à pauta novas possibilidades de análise de aspectos indecifráveis dos universos da Infância, em meio a tantos saberes já estabelecidos. Assumimos a dúvida, a ignorância, o aparente nonsense, tão típico das formas de conhecer das crianças. (Re)buscamos novas perspectivas para encontrar na complexidade das condições de existência das crianças questões pontuais para os problemas eternos, que nos movem a conhecer as Infâncias, assumindo o lugar de aprendizes e nos deixando levar pelas mãos e pelas vozes das próprias crianças. Na razão proporcional à intensidade de suas brincadeiras, buscamos desvelar um pouco mais as particularidades da infância em relação ao mundo dos adultos, o que pode ser entendido como a forma subjetiva de ser e ver o mundo por cada uma das diferentes infâncias aqui representadas.
Manuel Jacinto Sarmento toma a temática dos estudos da infância pela ótica da (in)visibilidade, apresentando-a como decorrente do conhecimento científico produzido até a modernidade. Retraça o esquecimento historiográfico imputado à Infância, chegando às imagens sociais de criança propostas por James, Jenks e Prout (1998). Destaca as distintas interpretações de infância decorrentes de variadas apropriações teóricas produzidas no campo das ciências sociais. Ele defende uma ruptura epistemológica com a imagem de "ser em devir" criança, propondo revisitar as imagens constituídas e sedimentadas de Infância pela desconstrução de seus fundamentos. Oferece-nos uma lógica para conhecê-las, indo além da tradicional visão de falta imputada à Infância e da invisibilidade cívica que a constrange, negando-lhe cidadania plena mesmo na atualidade. Assim o fazendo, Sarmento esclarece o solo discursivo que vai alicerçar as reflexões desenvolvidas nos textos subseqüentes.
Os capítulos que se seguem compõem um esquema arbitrário de apresentação, não havendo nenhuma suposta combinação de critérios. Podem ser percebidos desde a maior liberdade de movimento das crianças (aqui protagonistas) até a maior proteção, por motivos de saúde ou pelo distanciamento ou aproximação de seu desejo de domínio do espaço-escola. A razão do ordenamento é de somenos importância, pois o único elemento que perpassa todos os textos é o fato de terem como referência central o sujeito criança, em suas (in)visibilidades sociais aqui reveladas. O mapeamento de práticas e propostas divide-se em três eixos.
O primeiro, "Criança e cultura", acolhe quatro textos que elaboram as diferentes formas de manifestações culturais e a expressividade de suas crianças, apresentando pistas para pensar outros modos de viver em sociedade, o que torna urgente a necessidade de desenharmos propostas diferentes de escola. Os capítulos explicitam práticas sociais diversas, reconhecem concepções de infância e modos de ser criança em seus diferentes contextos de vida, destacando brincadeiras e regras aí vivenciadas. Há neles a preocupação comum de indicar a necessidade de desenvolver propostas pedagógicas, em que a multiplicidade de linguagens e formas de expressão subjetivas e sociais, de diferentes infâncias, possa ter seu lugar, autonomia e competência reconhecidos.
O segundo eixo, "Criança e lugar", reúne textos que desvelam a infância a partir dos lugares destinados às crianças, em territórios que tendem a replicar circuitos de pobreza e que, quase sempre, impedem a população de romper com condições desfavoráveis de vida. Os autores discutem como esses lugares são apropriados, ou não, por seus habitantes mirins e como eles produzem novas territorialidades em contextos espaciais, nem sempre propícios à infância, mas possíveis e passíveis de serem ressignificados pelas crianças que os freqüentam. Os capítulos partem de perspectivas teóricas próximas e buscam modelos analíticos que privilegiam o diálogo com as crianças, o que permite entendê-las por elas mesmas. Além disso, criam categorias próprias, a partir de uma metodologia etnográfica de produção de dados, revelando crianças informantes qualificadas de seus deslocamentos geográficos e cônscias do efeito de tais movimentos em seus propósitos de vida.
Os dois últimos textos, que compõem o terceiro segmento, "Criança e proteção à vida", versam sobre questões que buscam ultrapassar a visão de crianças como portadoras de necessidades e de instituições responsáveis por seus cuidados, sempre em estado de precariedade e transitoriedade. Espaços de subordinação tornam as crianças mais vulneráveis a suas fragilidades e às estratégias políticas e governamentais relacionadas a seu cuidado e proteção. Ambos os capítulos compreendem-nas como sujeitos de direitos, mesmo na interface das diferentes infâncias que vivenciam o sofrimento da dor física ou do abandono nos corredores de instituições de confinamento (acolhimento), relacionadas tanto à saúde quanto à educação. Hospitais e internatos são instituições, historicamente, marcadas pela diluição da subjetividade de infâncias; ao mesmo tempo, podem ser lugares reveladores de crianças capazes de criar estratégias desafiadoras de sobrevivência. Nesses ambientes, de aparência quase sempre hostil, as crianças podem se fortalecer mutuamente, acabando – a seu modo – por buscar seus direitos à proteção e à participação; reivindicando, através das brincadeiras, o direito de serem crianças e cidadãs.
"Criança e cultura" compõe-se de quatro capítulos. No primeiro, Domingos Barros Nobre discute as concepções de infância e de educação para as crianças, que permeiam as propostas de escolarização para as comunidades indígenas do Estado do Rio de Janeiro, Brasil. Em seus dez anos de pesquisa nas aldeias Sapukai, em Bracuí, Angra dos Reis, e Parati Mirim, em Parati, utiliza a modalidade de estudo de caso etnográfico, o que o leva a participar ativamente da vida e do mundo social que estuda. Domingos fotografa o cotidiano das crianças, suas brincadeiras e modos de ser. Revela o cotidiano das crianças da aldeia, observando suas brincadeiras, atividades escolares e a partilha de tarefas, na vida diária, com seus familiares. Analisa o universo cultural infantil indígena e o comportamento dos adultos em relação às crianças, trazendo as seguintes questões centrais para análise:
De que crianças falam os professores indígenas? Para qual criança a escola está sendo pensada? Que concepção de infância têm os Guarani? Como são as crianças da aldeia? De que brincam? Como aprendem? Como os adultos se relacionam com elas? 
Apoiado em Silva, Macedo e Nunes (2002), o autor nos informa a precariedade de estudos sobre infância indígena. Influenciado pelas discussões inauguradas por Allison James e Alan Prout, discute o novo paradigma da antropologia e da sociologia da infância e seus princípios, comparando-os às concepções de infância que permeiam as propostas de escolarização para as crianças indígenas. Apresenta-nos o lugar da infância Guarani e traduz o conceito de Mitã’i – Alma-palavra, infância/ser – a partir dos sentidos que a criança assume na profunda religiosidade Guarani Mbya, como um ser provido de alma e de palavra divinas.
O artigo apresenta a cultura da infância guarani como parte inseparável da cosmovisão típica daquele povo. Esclarece que, se desejarmos conhecer o ponto de vista da criança Guarani, além de conversarmos com elas e observarmos suas práticas, devemos buscar entender como esses povos pensam o que é ser criança, suas necessidades, crenças, mitologias e valores, e qual o lugar da infância nas sociedades Guarani. O texto reflete sobre para que crianças está sendo construída a escola guarani de Bracuí (Angra dos Reis, RJ) e alerta para a transformação que sofrerá a infância daquelas crianças com a chegada da escola. 
A participação portuguesa começa com o trabalho de Maria da Conceição Ventura, que aborda as interações de crianças ciganas e não ciganas num grupo multietário de 3 a 6 anos, numa instituição pública de educação. A autora busca compreender o significado de "ser criança cigana num contexto de educação formal", já que a presença de crianças de etnias distintas em contextos educacionais tem sido cada vez mais comum em Portugal. Por meio de uma metodologia de compartilhamento dos vários momentos do grupo de jardim de infância, a autora observa de forma participativa o que as crianças fazem e o que dizem sobre o mundo. Estuda "as crianças a partir das próprias crianças", reconhecendo-as como "atores sociais de pleno direito". Segue as correntes da sociologia interpretativa de inspiração fenomenológica e destaca como as crianças reproduzem preconceitos e orientações etnocêntricas e exclusivistas já na escola infantil. A partir de argumentações teóricas apoiadas em Sarmento e Pinto (1997), Sirota (1998) e Corsaro (2002, 1997, 1993), analisa diferentes rotinas diárias no jardim de infância, tais como a Apresentação das Surpresas (no Brasil seria a Rodinha ou Hora das Novidades) e a hora da arrumação do ambiente, para o término das atividades do dia. 
No artigo, Conceição Ventura expõe o desconhecimento nosso e da escola em especial de valores culturais de outras etnias, que se expressam na "ordem social adulta monocultural" direcionada a todas as crianças de um mesmo grupo etário. Tal "ordem" movimenta-se desatenta à diversidade de um público infantil em formação e desconsidera o fato de cada criança ser um sujeito social único. O trabalho desvela a criança como sujeito legítimo de estudo, cheia de marotas estratégias de afronta à ordem social instituída, independentemente de serem crianças ciganas ou não. 
Voltando-se para o sistema educacional, a autora alerta para o grande desafio que é uma educação multicultural, verdadeiramente empenhada na inclusão do "outro" e na valorização das diferenças culturais, na formação das crianças, desde a escola infantil. Destaca, também, o lugar de mediador de culturas que o educador deve assumir, "com vistas à construção de pontes" entre as ações cotidianas e a emergência de práticas curriculares democráticas, visando combater a discriminação entre crianças. Ressalta ainda que realidades como as por ela descritas acabam por exigir de todos maior reconhecimento dos próprios valores culturais para, a partir deles, poder conhecer os demais. 
No terceiro capítulo, Joaquim José Araújo Marques de Oliveira aborda as questões da "nova ruralidade" vivida em Portugal que, mais do que uma "reserva de paisagem para usufruto dos urbanos", representa a síntese de construções de projetos educacionais regionais e locais, que garantem às crianças a vivência de uma cidadania participativa e inovadora, que respeitam e preservam os valores de cada comunidade. O autor descreve o Projeto Escolas Rurais – de Obstáculo a Recurso –, promovido, nos últimos treze anos, pelo Instituto das Comunidades Educativas (ICE). O projeto tem entre seus principais objetivos entender o que é ser criança e adolescente em realidades socioculturais diversas como as rurais, além de "aproximar comunidades, professores e crianças espacialmente separados", por estarem localizadas em diferentes aldeias. O Escolas Rurais é realizado por intermédio do planejamento conjunto de ações, atividades de formação de professores e encontros intergeracionais das crianças das escolas com as pessoas das comunidades. As atividades são conhecidas como Dias Diferentes.
O capítulo traz à discussão a importância de "defender e valorizar o meio rural" e nele promover a mudança de visão de crianças que vivem em áreas rurais, que há bem pouco tempo eram consideradas cidadãs culturalmente defasadas, em comparação às crianças que vivem em localidades urbanas. Apresenta o trabalho desenvolvido em escolas rurais, que põe a criança em foco, no seio de ações intencionalmente programadas, em espaços orgânicos de movimentos sociais que organizam suas ações a partir de base pedagógica. 
A realidade das crianças que vivem nas aldeias é revelada na hibridez das identidades constituídas pela interpenetração dos espaços rurais de pertencimento, onde "a escola promove a recuperação das raízes culturais". Assim agindo, pretendem enfraquecer a hegemonia da cultura urbana de massas, através de uma lógica democrática de revitalização dos valores e da cultura local. As tensões enraizadas em solo educacional entre sujeitos co-promotores do desenvolvimento e mudança social acabaram por produzir crianças protagonistas nos processos de ressignificação das relações interpessoais das aldeias. O capítulo mostra que os Dias Diferentes possibilitaram novas descobertas sobre o mundo e a capacidade das crianças, tornando-as agentes de seu próprio processo de socialização, na partilha de sentidos com diferentes comunidades. Ao mesmo tempo as pessoas das comunidades passam a vê-las como sujeitos de direito e de voz, capazes de tomar decisões importantes, ressignificando lógicas particulares e sistemas simbólicos partilhados. A isso o autor chamou reconfiguração do "estatuto simbólico das infâncias" para as comunidades, tornando-as co-autoras de mudanças e possibilitando a valorização do meio em que vivem.
Liana Gonçalves Pontes Sodré, no quarto artigo da primeira parte, discute a triste realidade brasileira de abandono dos desempregados do campo e suas famílias, que acabou, tardiamente, por se organizar no que conhecemos por Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O capítulo apresenta as indicações das crianças de um assentamento do MST, na condição de informantes qualificados, que, por intermédio de desenhos e sua descrição, definem os elementos e componentes que elas consideram importantes na construção de uma unidade escolar. A autora, que é psicóloga, busca, pela pesquisa, uma melhor compreensão da relação das crianças com o contexto educacional, mediante a análise do que elas dizem preferir e desejar em seus ambientes educacionais. O trabalho foi realizado em resposta a uma solicitação do acampamento da cidade do Prado, no sul do Estado da Bahia (Brasil), que reivindicava uma proposta de educação infantil para crianças menores de 6 anos. Os resultados indicaram o quanto a cultura da infância depende dos processos de significação dos lugares reconhecidos como de criança existentes em cada comunidade. No artigo, as crianças ocupam o foco da investigação e demonstram que, quando são convidadas a expressar suas idéias e são ouvidas, enriquecem as perspectivas de análise dos adultos, tornando-se informantes privilegiados, com contribuições efetivas e pertinentes. A autora discute também a importância de uma educação infantil diferida para o meio rural, com uma proposta pedagógica que valorize, respeite e defenda o universo sociocultural de homens e mulheres do campo, e favoreça a autonomia das crianças e das famílias, a criatividade e a participação de todos, de modo a possibilitar a promoção de uma construção compartilhada entre adultos e crianças do meio rural.
A segunda parte do livro, "Criança e lugar", abrange três textos que abordam, de forma inovadora, a questão do pertencimento da criança aos lugares que habitam. No primeiro, Jader Janes Moreira Lopes discute a questão do espaço/lugar, a partir da idéia de topofilia de Tuan (1983) e do efeito do deslocamento geográfico na vida de crianças oriundas da Zona da Mata de Minas Gerais, Brasil. O objetivo é compreender como as crianças que migram, que se deslocam no espaço geográfico, por motivos diversos, quase sempre acompanhando seus grupos e/ou familiares, dialogam com as realidades as quais deixam ou a que chegam, dando-lhes sentidos e significados próprios, que as ajudam a se constituir como crianças. As questões que dirigiram a investigação desse geógrafo, dedicado à Educação, foram as seguintes:
Como as crianças que migram, que deixam seus lugares, constituem suas identidades? Como ocorrem seus processos de territorialização? Como dialogam com as dimensões de espaço e lugar? 
O capítulo é, assim, um convite a pensar as interações do global e do local, tendo como liame a mobilidade presente nas histórias de vida de crianças, que vão reescrevendo suas infâncias a cada relação e interação que estabelecem ao longo de tais deslocamentos. A investigação buscou mapear os "sentimentos das crianças em relação às mudanças, à casa, à rua, ao bairro e à escola", além de questionar "sobre as atividades preferidas, os amigos, as brincadeiras".
O autor, ao dialogar com romancistas tradicionais brasileiros, demonstra o quanto a migração no Brasil é antiga e como pouca atenção é dada às crianças que dela participam. Num movimento etnográfico cuidadoso, Jader participou ativamente do mundo social que estudava. Conversava com as crianças, ouvia-as, observava suas produções gráficas, buscando desvelar o significado que as constantes mudanças de lugar de moradia traziam à construção de suas infâncias e como o espaço escolar se situava nessa composição.
No capítulo seguinte, Glaucineide do Nascimento Coelho apóia-se num referencial teórico próximo ao discutido no artigo anterior, além dos específicos de sua própria formação: a arquitetura. Estuda as brincadeiras e as apropriações de alguns espaços livres na maior favela da América Latina, a Rocinha, no Rio de Janeiro. Observa a localidade como espaço/lugar que pode produzir afetividades e identidades de infância diferenciadas. O texto traz em primeiro plano o desejo de conhecer as crianças e suas brincadeiras para além dos modos tradicionalmente apresentados pela pedagogia, buscando interlocução com a arquitetura, a antropologia e a psicologia. A autora questiona o que é ser criança nesse contexto, através de um diálogo entre áreas de conhecimento e as falas e desenhos das crianças. Busca analisar que infâncias estão sendo construídas nos turnos de brincadeira livre e nas (im)possibilidades de brincar em espaços oficiais e proibidos, além de como elas compreendem o sentido de pertencimento e domínio de tais localidades. Esmiúça percursos de brincadeiras de crianças nas lajes, nos becos e nos parques (espaços privilegiados por elas), por meio da análise de como esses lugares podem dar pistas para começarmos a compreender e promover formas de apropriação de territórios de vida e de produção de múltiplas infâncias. Glauci fotografa, explora espaços proibidos junto às crianças, que os expõem sem retoque, em seus desenhos e narrativas. Contam seus sonhos e revelam suas estratégias deformadoras da realidade, em que transformam esses espaços físicos, algumas vezes inóspitos, em lugares de constituição de histórias de cidadanias de infâncias plenas.
Maria Adelaide Rua apresenta, no último capítulo da segunda parte, um estudo sobre dimensões da vida de crianças pertencentes aos bairros populares (ou sociais), através de diferentes formas de expressão daquelas que freqüentam a escola local. Os bairros sociais de Portugal correspondem ao que seriam as favelas do Brasil, descritos pela autora como
espaços cujo parque habitacional se encontra frequentemente degradado, onde existe uma enorme escassez de equipamentos e de serviços sociais e culturais e onde se assiste a uma vasta concentração de populações com baixos recursos económicos e sociais. São territórios segregados e estigmatizados em situação de ruptura com o restante espaço urbano.
Adelaide analisa as competências criativas das crianças de formular sentidos e interpretar as realidades sociais por elas vividas. Os protagonistas do estudo são crianças autônomas, que vivem num mundo constituído prioritariamente por grupo de pares, que passam larga parte de seus dias brincando livremente nas ruas, distantes da atenção e do controle dos adultos. Pela pobreza de seus locais de moradia, poucos têm acesso a equipamentos sociais e culturais comumente encontrados em bairros economicamente mais privilegiados. A pesquisa foi realizada num sistema público de escola de primeiro ciclo (do primeiro ao quarto ano), em que observações participantes foram realizadas em todas as áreas da escola e com crianças de diferentes idades, sendo utilizadas três técnicas distintas de produção de dados:
desenhos livres, depois comentados e descritos pelos respectivos autores, preenchimento de questionários predominantemente abertos e pequenas composições temáticas sobre a escola, o "lugar onde habito", "profissão que desejo" e tempos livres.
O artigo destaca as respostas dadas pelas crianças quando inquiridas por meio de questionários ou em pequenas composições temáticas. A autora analisa as falas sobre: mundo escolar, contexto social (formas de moradia), uso de tempo livre e profissões sonhadas (por elas e por seus familiares). Analisa também o que chamou "os sentires" relatados pelas crianças a partir das suas percepções em torno de quatro questões: "Eu gosto de", "Eu não gosto de", "Eu fico feliz quando", "Eu fico triste quando". Tal análise lhe permite constatar que as crianças percebem, com muita propriedade, seus "lugares sociais" e as representações que seus outros sociais têm delas, portanto a diferença de percepção da realidade entre crianças e adultos não é quantitativa, mas qualitativa; as crianças não sabem menos, nem fantasiam suas realidades: elas sabem e expressam sobre seu presente e futuro de forma própria e sábia. 
Integram a terceira e última parte, "Criança e proteção à vida", dois capítulos. No primeiro, Natalia Fernandes trata de um tema que, embora à primeira vista possa parecer já esgotado – o internato –, a partir de suas análises percebemos como tem sido inexplorado. Trata-se de experiências de crianças internadas numa instituição de acolhimento infantil, trazidas por seus familiares ou por algum tipo de determinação judicial. Reflete sobre as infâncias aí produzidas a partir de três paradigmas da sociologia: proteção, dependência e emancipação na infância.
Um dos propósitos do artigo é tornar visíveis as percepções e as saídas encontradas por "crianças colocadas na margem de um centro de acolhimento", que ao mesmo tempo que as guarda as esconde. Mostra como as crianças recuperam elementos essenciais à existência de seu direito de ser criança como família e amizades, por meio da construção de uma rede de apoio entre pares. O direito à proteção e à participação é discutido por jovens narradores (entre 8 e 10 anos) que vivem em ambientes onde a violência e a agressão fazem parte do jogo da vida. É destacado o papel da instituição na diluição das garantias fundamentais das crianças e na incompatibilidade de suas normas para a formação e a visão de mundo delas. 
A autora discute como o direito à participação é entendido por essas crianças, num quadro essencialmente prático de interações de ajuda. Nesse quadro os significados de ajuda e participação se entrecruzam e são revelados em narrativas complexas, repletas de componentes emocionais. O texto demonstra como as representações dos direitos à proteção e à participação (freqüentemente tensos e ambíguos) na vida dessas crianças deslocam-se de seu sentido jurídico e, por não serem formulados nem consciencializados como direitos coletivos (para todos), acabam por se exprimir em práticas substitutivas de interajuda grupal.
No último capítulo do livro, Rejane de Souza Fontes expõe, desde o título, sua principal questão: o papel da educação junto às crianças hospitalizadas. Traz-nos a experiência da pedagogia hospitalar com crianças em processo de internação e reinternação, avaliando a ressonância de tal prática na saúde infantil, a partir da análise de relatos das próprias crianças. O trabalho revela o papel de uma atuação pedagógica como remédio para a saúde de crianças hospitalizadas, examinando suas ações, emoções e reações. Com base em estudos teóricos de Henry Wallon e Lev S. Vygotsky, a autora busca entender o processo de construção da pessoa humana e, nele, como se vive o período da vida em que se é criança, elegendo a linguagem e a afetividade categorias expressivas da infância e centrais na análise do processo de resgate da saúde da criança hospitalizada. 
A partir de uma abordagem metodológica pautada na observação participante, a autora descreve interações sociais criança/adulto e criança/criança, e observa o cotidiano de infâncias desfiguradas pelo adoecimento. Discute o papel de uma pedagogia hospitalar marcada por ações pedagógicas intencionais, que tenha como foco a criança, ainda que doente, como sujeito de direito a uma infância saudável. O trabalho não se propõe analisar em que condições cognitivas as crianças, em situações desfavoráveis como a de uma enfermaria pediátrica, elaboram conhecimentos sistematizados sobre o mundo, e sim a partir de que sistemas simbólicos as crianças atribuem sentido ao mundo, a seu adoecer e a sua própria vida. A autora desvela, por intermédio das vozes, dos silêncios e dos silenciamentos impostos às crianças internadas, o movimento de produção de conhecimento e de sentido da vida, surpreendendo-se com as estratégias de sobrevivência criadas por estes sujeitos plenos de direitos – as crianças enfermas, que se negam a morrer, em uma enfermaria pediátrica, num hospital público de Niterói (Rio de Janeiro, Brasil).
Com nítidos contornos e estatutos próprios, as crianças das pesquisas tratadas neste livro nos desafiam a apreciar modos distintos de perceber seus deslocamentos e escolhas e de entender como tais movimentos interferem no curso de suas vidas e, conseqüentemente, na construção de suas infâncias, já que os territórios por elas apropriados e as escolhas realizadas retratam diversidades e desigualdades resultantes de posição social, gênero, etnia e experiência escolar vivida por seus protagonistas.
Os capítulos aqui reunidos alinhavam sucessivas tentativas de decifrar os esquemas, montados pelas crianças, para compreender e interferir no mundo que os adultos prepararam para elas, por meio de enigmáticas estratégias próprias do universo da infância. Em todas as análises, há em comum a insubordinação aos modelos de educação acomodados ao óbvio e adaptados à lógica dominante, a qual implica a submissão da infância.
Formam-se ao menos duas certezas: a primeira, da complexidade envolvida nas tentativas de compreender essa etapa da vida nos diferentes contextos socioculturais aqui apresentados; a segunda, da impossibilidade de uma visão de infância única – universal –, que é também a impossibilidade de uma única forma de compreender as crianças em seus distintos mundos. A essas certezas soma-se uma esperança: a de termos rompido com suas invisibilidades, tornando-as visíveis para todos que lerem suas histórias e geografias, materializadas nas páginas deste livro.
Nesse sentido, o livro procura incomodar as consciências tranqüilas e sacudir pesquisadores e educadores da Infância, que seguem com seus olhos tradicionalmente embaçados por expectativas metodológicas e teorias fossilizadas, buscando aguçar nossas e vossas sensibilidades frente às escolhas realizadas pelas crianças, percebendo-as como "sujeitos de direitos e de histórias singulares", fazedoras e transgressoras de culturas, com modos instigantes, próprios e indagadores de ressignificar a vida.



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SUMÁRIO

  • Apresentação: infâncias e crianças visíveis Vera Maria Ramos de Vasconcellos
  •  Visibilidade social e estudo da infância Manuel Jacinto Sarmento
  • Parte 1: Criança e cultura
  •  Infância indígena Guarani Mbya Domingos Barros Nobre
  •  Da experiência da criança cigana no jardim de infância Maria da Conceição Ventura
  •  Infância e educação no movimento das escolas rurais Joaquim José Araújo Marques de Oliveira
  •  A participação das crianças de movimentos sociais em projetos educacionais: um estudo de caso Liana Gonçalves Pontes Sodré
  • Parte 2: Criança e lugar
  •  Espaço, lugar e territórios de identidade: a invisibilidade das crianças migrantes Jader Janer Moreira Lopes
  •  Brincadeiras na favela: a constituição da infância nas interações com o ambiente Glaucineide do Nascimento Coelho
  •  Infância em territórios de pobreza: os falares e sentires das crianças Maria Adelaide Rua
  • Parte 3: Criança e proteção à vida
  •  O centro e a margem: infância, protecção e acolhimento institucional Natalia Fernandes
  •  Narrativas da infância hospitalizada Rejane de Souza Fontes

 

Informações Adicionais

Autor (es) / Organizador (es) Vera Maria Ramos de Vasconcellos & Manuel Jacinto Sarmento - orgs.
Editora (s) Junqueira&Marin Editores
ISBN 978-85-86305-43-6
Área (s) / Assunto (s) Educação
Edição / Ano 1ª / 2007
Nº de Páginas 308
Acabamento / Formato brochura - costurado e colado / 14cmx21cm

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