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MATERIAL DIDÁTICO: discursos e saberes

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Rosilene Batista de Oliveira Fiscarelli


Este livro nasceu de uma inquietação sugestiva: o interesse de Rosilene de escrutinar o universo dos materiais didáticos tidos pelos educadores, de um modo geral, como instrumentos imprescindíveis à atividade educativa, condição de um trabalho docente inovador e bem sucedido, expressão do que seja uma "boa aula" agradável e estimulante aos alunos, símbolos de melhoria e modernização educacional.
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O que mais surpreende na leitura do livro, para além da escrita elegante e o critério e rigor nas análises, é a originalidade em relação ao tratamento do tema, a abordagem teórica utilizada e as fontes mobilizadas pela autora para a realização do estudo.
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O leitor está, portanto, convidado a percorrer este texto e a se surpreender interrogando o que lhe parecia a princípio absolutamente familiar e inquestionável. Este é sem dúvida, um dos maiores méritos deste livro.

Rosa Fátima de Souza


 


PREFÁCIO

Embora o uso familiar das coisas à nossa volta destrua nossa surpresa, isto não cura nossa ignorância. 
John Locke

Este livro nasceu de uma inquietação sugestiva: o interesse de Rosilene de escrutinar o universo dos materiais didáticos tidos pelos educadores, de um modo geral, como instrumentos imprescindíveis à atividade educativa, condição de um trabalho docente inovador e bem sucedido, expressão do que seja uma "boa aula" agradável e estimulante aos alunos, símbolos de melhoria e modernização educacional. Ao problematizar um objeto em torno do qual pairam poucas reflexões, a autora enveredou-se pelos valores e saberes que norteiam o campo da educação e, visitando o espaço da representação irredutível do aparentemente óbvio, fez emergir a intrínseca problemática das práticas discursivas em torno dos materiais didáticos mostrando como elas geram um modo peculiar de conceber e praticar o ensino. Dessa maneira, a relevância do tema sobressai de modo inequívoco.
Desde o século XIX, intensificou-se a produção de materiais para uso escolar. Face do desenvolvimento econômico e social do Ocidente em que as tecnologias de ensino associaram-se ao espetáculo da indústria, a composição material da educação escolar evidencia a incessante busca pela racionalização da escola enquanto organização e as tentativas de tornar o ensino mais produtivo e eficiente, as aulas mais motivadas e atrativas, a educação mais moderna. Se é fato que a escola consiste em uma realidade social e material, não se pode esquecer a importante mediação que os recursos didáticos operam no processo educativo. O quadro-negro, o giz, os livros didáticos, o flanelógrafo, mapas, slides, cartazes, vídeos, jogos, retroprojetor, computadores, equipamentos de multimídia, novas e velhas tecnologias interpõem-se no cotidiano escolar sem que muitas vezes nos apercebamos disso. No entanto, esses artefatos auxiliares do ensino, são tratados no universo educacional, quase sempre de forma naturalizada. Problematizá-los enquanto objetos sociais e culturais impõe-se como questão fundamental à medida que eles instituem um discurso e um poder, informam valores e concepções subjacentes à educação e são tomados, às vezes, como possibilidade e limite do processo ensino-aprendizagem. Neste livro, Rosilene não se furtou a esse desafio.
O que mais surpreende na leitura do livro, para além da escrita elegante e o critério e rigor nas análises, é a originalidade em relação ao tratamento do tema, a abordagem teórica utilizada e as fontes mobilizadas pela autora para a realização do estudo. A novidade vem do lugar onde ela se situa para construir o objeto de pesquisa. Baseando-se na obra de Foucault, Rosilene desloca o olhar costumeiramente focado nos usos dos materiais didáticos e nas análises sobre metodologia e políticas de inovação para os discursos e saberes. Dessa forma, busca compreender como se constrói a percepção predominantemente positiva e auspiciosa acerca da importância e uso dos materiais didáticos nas escolas. Lidando com diferentes temporalidades e práticas discursivas geradas em distintos espaços do campo educacional, a autora examina três discursos: o pedagógico, o da política educacional e o dos professores do ensino fundamental da rede pública paulista. 
Nos manuais de Didática, amplamente utilizados no Brasil nos cursos de formação de professores nas décadas finais do século XX, Rosilene encontrou a formulação de um campo de saberes sobre os materiais didáticos cientificamente legitimado. Além da prescrição das "melhores práticas", esses saberes consagraram uma concepção dos recursos didáticos como objetos valiosos para a educação, meios modernizadores, concretizadores do conhecimento, motivadores do ensino e capazes de criar novas posturas e atitudes em professores e alunos.
No discurso da política educacional implementada pela Secretaria do Estado da Educação de São Paulo, na década de 1990, Rosilene põe em destaque a centralidade atribuída aos recursos pedagógicos e salas-ambiente na proposta de melhoria da qualidade de ensino. Os materiais didáticos são utilizados como estratégia discursiva para dar sentido aos dispositivos "inovadores" da proposta política. Eles são mobilizados no discurso do Estado como instrumentos da renovação pedagógica e possibilidade de racionalização do sistema educativo imprimindo-lhe maior eficiência e eficácia.
Partindo da relação entre poder e saber como produtores de práticas nas instituições escolares, a autora identificou no discurso docente elementos das "verdades" construídas pelos manuais de Didática e pela política educacional encontrando nesses discursos concepções e saberes historicamente construídos. No entanto, não deixou de ressaltar as especificidades dos significados estabelecidos pelos professores em torno dos materiais didáticos. A percepção dos professores ancora-se nas características estruturais e funcionais de cada disciplina e os sentidos e valores são ressignificados tendo em vista os enfrentamentos diuturnos das práticas 
Se há algo mais a ressaltar, é a excelência deste trabalho, especialmente as suas contribuições sobre aspectos pouco evidentes. Situando-se numa região de fronteira em diálogo aberto com o campo da educação, não posso deixar de mencionar o significado deste livro para os estudos em cultura escolar e cultura material escolar. 
A fertilidade do conceito de cultura escolar e sua força interpretativa residem na possibilidade de nos acercarmos de uma compreensão mais rica dos aspectos internos da escola. A esse respeito, o leitor encontrará neste livro uma interlocução promissora. Ao ressaltar os saberes e discursos sobre os materiais didáticos, Rosilene toca no âmago das regularidades institucionais e na questão da sedimentação de práticas e idéias. As interpretações da autora lançam luz sobre os modos de pensar que governam o ensino e que perduram ao longo do tempo. Leva-nos a questionar o modo como os saberes pedagógicos normatizam o campo educacional e a duvidar da panacéia em torno das novas tecnologias. 
Após uma longa convivência de Rosilene junto ao Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Cultura e Educação, apraz-nos encontrar neste livro indícios valiosos de uma reflexão amadurecida nutrida das discussões realizadas no grupo e da participação no programa de pesquisa em cultura escolar que arduamente temos buscado consolidar no Programa de Pós-Graduação em Educação Escolar da UNESP de Araraquara, na última década. 
O conhecimento sobre a cultura escolar passa pela problematização do universo material, isto é, pelos objetos e instrumentos utilizados nas atividades de ensino-aprendizagem. A esse respeito, não é preciso insistir sobre em que medida os materiais didáticos vinculam concepções pedagógicas, saberes e práticas. Ao interrogá-los, como o faz, Rosilene coloca em perspectiva o fundamental no estudo da cultura material, ou seja, a questão da atribuição de sentido que envolve os artefatos. A relação intrínseca entre as coisas e os homens é produto da interação entre materialidade (atributos físicos) e significados. No âmbito escolar, os objetos sofrem inúmeras ressignificações. Alguns são produzidos com a finalidade precípua do uso escolar, outros são apropriados para viabilizar as necessidades do ensino. Esse conjunto diversificado de objetos, como nos mostra Rosilene, está envolto em uma rede de saberes, poderes e significados. A leitura possível a partir dos enunciados produzidos sobre os objetos consiste em um veio fértil de interpretação.
O leitor está, portanto, convidado a percorrer este texto e a se surpreender interrogando o que lhe parecia a princípio absolutamente familiar e inquestionável. Este é sem dúvida, um dos maiores méritos deste livro.

Rosa Fátima de Souza
Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Cultura e Educação 

Universidade Estadual Paulista / Campus de Araraquara

capa

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Detalhes

SUMÁRIO

  • PREFÁCIO
  • INTRODUÇÃO
  • Problematizando o objeto de estudo: os materiais didáticos
  • Uma abordagem teórica
  • CAPÍTULO I : OS MATERIAIS DIDÁTICOS NO DISCURSO DOS MANUAIS DE DIDÁTICA
  • Os manuais de Didática como fonte de pesquisa
  • Os materiais didáticos no livro de Nérici
  • Os materiais didáticos no ciclo docente de Mattos
  • Os materiais didáticos nas propostas educacionais de Turra et al.
  • Os saberes sobre os materiais didáticos construídos pelo discurso dos manuais
  • CAPÍTULO II : OS MATERIAIS DIDÁTICOS NO CONTEXTO DA REFORMA EDUCACIONAL PAULISTA
  • Em busca da qualidade de ensino
  • A reforma educacional e o lugar dos materiais didáticos
  • A política educacional da Secretaria de Estado de Educação de São Paulo: principais diretrizes
  • Os materiais didáticos criando novos espaços: a sala-ambiente
  • A estrutura formal da publicação "A escola de cara nova: sala-ambiente"
  • As verdades ditas sobre o material didático: uma análise discursiva
  • Os saberes sobre os materiais didáticos construídos pelo discurso da SEE/SP
  • Quadro 01 - Materiais propostos na publicação
  • CAPÍTULO III : O DISCURSO DOCENTE SOBRE OS MATERIAIS DIDÁTICOS
  • O que dizem os professores sobre os materiais didáticos no cotidiano da sala de aula
  • CONSIDERAÇÕES FINAIS
  • NOTAS
  • REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Informações Adicionais

Autor (es) / Organizador (es) Rosilene Batista de Oliveira Fiscarelli
Editora (s) Junqueira&Marin Editores
ISBN 978-85-86305-52-8
Área (s) / Assunto (s) Materiais didáticos, Didática, Formação de professores, Pesquisa sobre escola.
Edição / Ano 1ª / 2008
Nº de Páginas 188
Acabamento / Formato brochura - costurado e colado / 14cm x 21cm

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