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ESCOLAS, ORGANIZAÇÕES E ENSINO

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Alda Junqueira Marin - org.


Este livro contribui para a compreensão da vida escolar, o qual todos nós consideramos fundamental para os que se dedicam, de alguma forma, à educação. As análises com crítica e as ajudas que os estudos trazem auxiliam a percepção de aspectos diferenciados, porquanto são muitas as escolas, bem como permitem que se tenha uma amostra das inumeráveis interferências que existem ou que podemos exercer sobre o ensino, sobretudo sobre as ações docentes na atividade educativa. Espera-se que, ao final, os conteúdos dos capítulos estimulem os leitores ao estudo, percebendo que, embora pareça um trabalho de patchwork, na verdade ele possui um liame: o nosso empenho e compromisso com a Educação, em geral, e com a Escolar e seus agentes em particular. 


 


Esta edição recebeu apoio do Grupo de Pesquisa Docência em suas Múltiplas Dimensões.


 




 


 


Prefácio

Ser convidado para prefaciar a coletânea organizada pela Profa. Dra. Alda Junqueira Marin foi motivo de satisfação e orgulho, pois, além de dedicada companheira de trabalho, tornou-se em pouco tempo de convívio, uma amiga sempre pronta a colaborar nas mais distintas atividades do Programa a que pertencemos.
Alda é hoje referência nacional no campo de estudos da didática, da organização escolar e da prática docente, pela qualidade de seus escritos originários do programa de pesquisa que tem desenvolvido durante toda a sua trajetória acadêmica que tem atraído, além de experimentados e reconhecidos acadêmicos da área da educação, um conjunto de jovens pesquisadores, muitos formados por ela e outros que, embora não tenham sido seus orientandos, puderam no convívio acadêmico salutar e generoso por ela criado, usufruir de sua competência e generosidade.
Esta coletânea é mais um dos produtos de sua intensa atividade acadêmica que tem como um dos pilares a formação de jovens pesquisadores, expressão do seu compromisso com a densidade da pesquisa acadêmica em educação aliada à relevância social dos resultados alcançados.
Assim como afirma em sua apresentação, esta relevância social, no entanto, não pode se sobrelevar ao rigor da investigação, mas, ao contrário, é a qualidade explicativa da pesquisa que pode exercer influência sobre a prática social, na perspectiva que ela denominou de "crítico-colaborativa".
Aliás, esta sua conceituação de pesquisa é mais uma contribuição para a qualificação da investigação em educação, em razão de sua posição clara e cristalina contra a visão ingênua que considera a abordagem crítica como limitada, na medida em que pouco contribui para a transformação social, pois que permanece ao nível da denúncia: ao realizar a crítica há colaboração, sim, pois é a partir da crítica que se reconstrói o problemático. Igualmente, no sentido inverso, é a partir das sugestões, das colaborações, que se percebe onde há problemas, do contrário as ajudas não seriam necessárias.
Por outro lado, a ênfase na pesquisa que procura analisar o que efetivamente ocorre no interior das instituições escolares, envolvendo desde a sua organização até as práticas sociais que envolvem os seus agentes (professores, diretores e alunos), ultrapassa a visão estreita que se prende exclusivamente a investigar as peculiaridades singulares advindas do processo histórico de cada instituição escolar, pois consegue, por meio de embasamento oferecido por referenciais teóricos sólidos, analisar com profundidade cada uma dessas unidades como expressão localizada de uma instituição que, pela própria função social que desempenha, tem muito em comum entre si.
É o que se pode constatar pelos capítulos que analisam "fenômenos corriqueiros e cotidianos", muitas vezes, desprezados pelos estudos acadêmicos, por serem encarados como de pouca importância para compreensão do processo educativo como expressão política da organização social. 
Assim, focos no absenteísmo docente, na organização do espaço escolar, em experiências discentes dentro do espaço escolar, nas formas pelas quais as escolas recriam as regulamentações advindas dos órgãos centrais, envolvendo diferentes facetas do currículo escolar, analisados com rigor analítico, oferecem excelente contribuição para a compreensão e análise crítica do fenômeno educativo atual.
Tenho a convicção de que muitos usufruirão das contribuições desta obra, desde pesquisadores e acadêmicos voltados ao estudo da escola, assim como os agentes da ação educativa nas escolas, na medida em que resulta da trajetória consistente, persistente e qualificada desta professora que tem formado gerações de educadores e de pesquisadores da educação escolar no Brasil e que aqui reuniu estudos que oferecem um pouco mais de luzes sobre esta instituição complexa e contraditória, mas fundamental para a formação integral do ser humano, ideal que todos nós almejamos e sobre o qual muito pudemos aprender com uma verdadeira educadora, Alda Junqueira Marin.

SP, 16/08/2013

JOSÉ GERALDO SILVEIRA BUENO


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Escolas, organizações e ensino: uma apresentação

Alda Junqueira Marin


Há algumas décadas, estudos têm apresentado dados e considerações sobre a precariedade da educação em muitos países e o sucesso de sistemas vigentes em outros. Não têm faltado propostas desde os organismos internacionais com dados e princípios, com abordagens variadas, sobretudo em relação ao que se convencionou chamar de globalização e educação, pautadas por perspectivas sociais, políticas e econômicas em relações macro e micro institucionais da educação. Duas amplas abordagens dessa relação são apresentadas por Dale (2004) cotejando o trabalho de Meyer e seus colegas e a dele, Dale. Este autor propõe a perspectiva de agenda global para a educação a partir da economia como contraposta à outra, proposta por Meyer que a denomina de cultura educacional. Para Dale a diferença fundamental entre ambas é a de que a da cultura pressupõe generalização de modelos entre os países e a perspectiva que Dale defende é diferente por admitir a mediação local entre os sistemas educativos. Entretanto, nenhum dos dois enfrenta a questão central do uso da abordagem econômica como base das análises. Outra abordagem, porém bem crítica, é apresentada por Bourdieu, sobretudo em dois trabalhos (1998, 2001) em que analisa as proposições genéricas nessa esfera e suas consequências pela imposição de modelos, pela circulação e introjeção de mentalidades para o dia a dia dos povos, defendendo a necessidade da reflexividade crítica a tudo e a todos, em todas as esferas humanas com ênfase na educação e na ciência.
Essa reflexividade crítica tem estado, de certos modos, presente entre nós brasileiros, pesquisadores, artistas e demais envolvidos com o mundo simbólico. Nas duas últimas décadas, não têm sido poucas as produções voltadas às análises e debates relativos a toda essa interferência mundial. Podem-se destacar algumas referências na esfera educacional, e particularmente no que se refere ao amplo foco de interesse deste livro. Dois seminários internacionais realizados pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo por meio de programação organizada e depois divulgada pelo Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: História,Política,Sociedade incidiram direta e criticamente sobre tais políticas abordando,inicialmente, diferentes facetas da educação em geral e aspectos particulares da vida das escolas, tais como financiamentos, relações com ONGs, qualidade da educação, formação de professores, projetos em desenvolvimento no país e, posteriormente, discussões sobre currículo e reformas em vários países, controles e avaliações, pesquisa educacional(DE TOMMASI, WARDE e HADDAD, 1996; WARDE, 1998). Alguns anos mais tarde, em 2004, foi publicado o dossiê por Educação & Sociedade, números 87 e 89 do volume 25, com artigos abrangendo diferentes aspectos do foco geral da globalização, trabalho e educação com afunilamento para análises sobre formação e trabalho docente apontando facetas a partir das escolas tais como novas exigências de performatividade e desempenho, novas características, com ênfase nas competências e flexibilidade e seus impactos na carreira e no currículo, nas condições da formação e do currículo escolar (BALL; SANTOS; OLIVEIRA; BARRETO; FERREIRA; LÜDKE e BOING; SAMPAIO e MARIN, todos de 2004). Assim, trabalhos como esses e outros, trazem, muito fortemente, as questões críticas e circunstanciais relativas à suas consequências para a educação e particularmente ao ensino.
Em outra vertente de análise, diversos estudos têm dedicado atenção às condições sociais, de trabalho e carreira de professores dos professores complementando aspectos relativos à formação como parte de um conjunto necessário à compreensão sobre o ensino. Diante de questionamentos sobre tais focos, verifica-se que, de fato, os professores apresentam condições que necessitam de melhorias em diversos aspectos desse conjunto para o desempenho de suas funções na imensa maioria dos lugares deste país ( PENNA, 2011; OLIVEIRA e VIEIRA,2010). 
Há décadas que temos defendido a necessidade de que o ensino – especificamente a atuação didática dos professores – seja compreendido de modo alargado, pois, como se percebe pelo que foi dito acima, há condicionantes de várias esferas que auxiliam ou emperram o que estudantes e professores realizam, podem ou não realizar no interior das escolas. Entretanto são poucos os trabalhos de fato desenvolvidos intensivamente com essa perspectiva relacional, que analisem o ensino e a aprendizagem com tais interferências e possibilidades de compreensão. 
Assim, é na direção de cumprir o chamado à divulgação crítico-colaborativa sobre a educação nos momentos recentes que tentamos organizar esta publicação com alguns dados que exemplificam e pretendem auxiliar na direção de tal compreensão. Estou denominando de crítico-colaborativa essa perspectiva pelo fato de que ao realizar a crítica há colaboração, sim, pois é a partir da crítica que se reconstrói o problemático. Igualmente, no sentido inverso, é a partir das sugestões, das colaborações, que se percebe onde há problemas, do contrário as ajudas não seriam necessárias.
Essa perspectiva sempre esteve presente em nossos debates embora não no sentido de apresentar propriamente propostas, mas tecer considerações. No início dos anos 2000 elaboramos um amplo projeto de pesquisa em decorrência da reorganização das linhas de pesquisa do Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: História,Política,Sociedade (BUENO, MARIN e SAMPAIO, 2000).
Naquele momento, definia-se escola e cultura como eixo fundamental norteador das linhas de pesquisa, dos projetos coletivos amplos e particulares de professores e alunos de iniciação científica, mestrado e doutorado. De lá para cá têm sido anos de intenso estudo sobre essa temática, e o projeto que elaboramos se configurava como de estudos e pesquisas denominado "Escola: entre saberes, professores e alunos". Ao abrigo desse amplo escopo foram exploradas diversas perspectivas teóricas estudadas de modo coletivo em atividades programadas e no âmbito dos projetos individuais. Diversas dissertações e teses foram elaboradas como resultado de tais estudos, assim como outros tipos de produções de professores orientadas por focos presentes nas entradas enumeradas em seu título. Algumas temáticas podem ser identificadas neste resumo:
[...] discutindo e analisando propostas/projetos de organização escolar (escola cabana, escola de tempo integral, proposta pedagógica de escola marista) ao lado de outro conjunto composto por análises de impacto de ações governamentais e políticas educacionais no interior das escolas (fracasso escolar e a cultura da escola no regime de progressão continuada, proposta de ciclos, progressão continuada e práticas avaliativas,reforma do ensino médio e sua implementação, reforma do ensino técnico, práticas de reforço e recuperação em escolas de ciclo II, ciclo básico e prática pedagógica) ou,ainda, práticas diárias voltadas para aspectos específicos dos componentes curriculares (de pré-escola, do ensino da matemática, para controle do corpo no ensino fundamental,de ensino da língua na formação do professor em nível médio, sobre concepção didático pedagógica de professores de ciências, educação física na escola, das primeiras séries do ensino fundamental, de professores de história, sobre conhecimento escolar em ciências no ensino fundamental, informação profissional na escola de ensino médio, práticas e rituais de avaliação na cultura da escola,de tempo na cultura escolar em centros de educação integral, da física ensinada e a cultura, competências no ensino médio) complementando com aspectos de organização da escola (festas na creche, organização da escola em ciclos,conselho de escola, papel do diretor de escola, a boa escola para professores e pais)(MARIN et al., 2006, p.4).
Esse amplo projeto, com tais exemplos de resultados, vigorou de 2000 a 2005, época em que, mantendo as mesmas linhas de pesquisa, resolvemos organizar novos projetos, amplos ainda, coletivos, para dar abrigo a novos projetos individuais de professores e alunos. Trata-se de projeto mais recortado em sua abrangência sobre a escola, porém com maior especificidade do que o anterior, pois nos aproximamos dos focos de interesse, de modo a investir esforços para aprofundamento e concentração. Como decorrência, parte da equipe organizou o projeto denominado "Organização escolar e práticas pedagógicas" (MARIN et al.,2006).Iniciado em 2006, ainda encontra-se em vigência considerando-se o seu alto poder gerador de estudos e pesquisas de professores e estudantes de graduação e pós-graduação, conforme pode ser verificado em várias produções dos participantes.
Nesse projeto com recorte mais específico, caracterizado sempre pela perspectiva relacional que priorizamos para compreensão da educação escolar, definimos duas possibilidades de entradas para investigação: a organização escolar e as práticas pedagógicas. Isso não significa uma fragmentação, possível de ser pensada à primeira vista, mas a necessidade de atender a interesses de pesquisa e o privilegiamento de focos de análises pouco usuais conforme explicitado a seguir.
Este livro traz algumas contribuições relativas à primeira entrada, qual seja, a da organização escolar, em que temos presentes duas perspectivas: a organização do trabalho escolar (OLIVEIRA,2010) e a organização do trabalho pedagógico. A partir de tais perspectivas temos possibilidades de abranger diferentes focos de análise. A organização institucional implica a divisão do trabalho na escola que pode ser acessada possibilitando estudos para compreender os modos de organização interna das pessoas sejam alunos, professores ou outros agentes, mas também corresponde, muito peculiarmente, nessas instituições, aos "modos específicos de organizar espaços, tempos, agrupamentos de alunos e os modos de relação com o conhecimento" (MARIN et al., 2006, p.5). 
Segundo Canário (2005) essa é uma das dimensões da organização que menos polêmica levanta, exatamente pelo processo histórico de naturalização. Essa é uma das dimensões que temos tentado problematizar por sua interferência na outra face da escola que é a das práticas propriamente pedagógicas.
É nessa direção que temos duas pesquisas iniciais neste livro. O que ocorre com tal organização quando professores, faltam? Os professores e os estudantes são os principais protagonistas do ensino, razão fundamental de ser da escola. As escolas se organizam contando com suas presenças. Mas, e se um deles não está no momento exato dos trabalhos diários? As contribuições de Silmar Leila dos Santos e Luiz Carlos Gesqui são fundamentais para a compreensão de duas faces das mesmas ações observadas e analisadas em relação a uma situação corriqueira do dia a dia das escolas: as faltas dos professores. Ao adentrar as situações escolares e focalizar as suas organizações internas no que tange à realidade das faltas dos professores, os pesquisadores flagram as burlas da regulamentação, ao mesmo tempo em que atentam às necessidades das instituições quanto à presença de regras e das condições que as escolas possuem para criá-las com vistas à reorganização, instantâneas muitas vezes, e suas relações com o trabalho pedagógico, revelando as contradições dos limites e das possibilidades das realidades.
Em outro foco – o dos espaços das escolas – há que se atentar para as diferentes formas de sua conceituação buscando compreender, como, por exemplo, nos indicam Escolano e Viñao Frago (1998), quais os constructos culturais que a escola expressa e reflete, para além da materialidade. Adentrar a escola para acessar seus agentes, sua materialidade e cultura requer atenção aos seus significados, não só dos espaços objetivos, mas também os subjetivos e as consequências de seus usos para a atividade educativa. Como vêm sendo organizados, distribuídos e utilizados os espaços escolares e quais são as consequências para a formação dos estudantes e demais agentes das escolas? O estudo de Renata Provetti Weffort Almeida ao lado da produção de Luciana de Souza Gracioso e Gabriela Leandro relacionam-se diretamente com a organização da escola em seus diversificados espaços e a organização do trabalho pedagógico articulando-se, ainda, com questões sobre o conhecimento para crianças de diferentes idades. Renata focaliza questões absolutamente centrais da educação infantil analisando o prédio, ações políticas e opções de lugares para realização do trabalho educativo detectando rotinas presentes nas escolhas – e, consequentemente, as decorrências de opções possíveis nos mesmos com os conhecimentos presentes na relação pedagógica – contendo padrão homogeneizador tanto na esfera cognitiva quanto na das condutas em prejuízo de educação mais variada, livre e espontânea das crianças. Já o trabalho de Luciana e de Gabriela analisa ações das bibliotecas escolares e focaliza possibilidades de alternativas de organização do trabalho pedagógico em seu interior diante das necessidades crescentes de domínio da informação no mundo atual. Privilegiam o lugar dos prédios denominados bibliotecas escolares com considerações sobre os modos de sua organização específica e os significados de seu uso propiciador do conhecimento para efetivo letramento a partir desse ambiente que extrapola e, ao mesmo tempo, se articula com o ensino das salas de aula e de outros ambientes escolares.
Esse ensino e aprendizagem têm estado sob holofotes nas últimas décadas, sobretudo em função de questões ao redor da qualidade e do desempenho das redes de ensino. Focalizam-se os professores por seus desempenhos cobrando-se resultados e analisando-os quanto a vários aspectos conforme apontado anteriormente no início deste texto. Os alunos são focalizados por seus resultados nas avaliações de todo tipo e também por suas condutas de violência ou indisciplina. Entretanto, se os professores são investigados e manifestam suas condições de trabalho e suas necessidades para o trabalho, o mesmo não acontece tão frequentemente com os alunos, bem menos protagonistas das investigações, sejam como alunos, sejam como crianças ou adolescentes. Em artigo arguto Sampaio (2005) apresenta alguns resultados de estudos que se reportam a manifestações, porém questões sobre a escola e sua organização são ainda menos frequentes em suas relações com o ensino ou atividade formativa. Também no último capítulo deste livro o capítulo escrito por ela e Claudia há interessantes reflexões sobre o sentido da escola para crianças e adolescentes. 
Assim, nas tentativas de acessar a escola para sua compreensão, os dados gerados abrangem todos os agentes aí presentes, incluindo os alunos e como eles se manifestam sobre a escola. O estudo realizado por Carlos Antonio Giovinazzo Jr. teve o grupo focal como meio de obtenção das informações buscando apreender e entender as experiências vivenciadas, na escola, por jovens do ensino médio. O estudo relata a maneira como eles percebem a relação que mantêm com a escola no que tange ao espaço físico ao qual eles têm acesso, as experiências e as expectativas em relação à instituição e suas funções.
Esses aspectos das funções e das características das escolas de ensino fundamental passaram, recentemente, ou ainda vêm passando, como decorrência da expansão enorme das redes e consequente abertura de novas vagas para carreiras de professores; novas reorganizações em razão da legislação que criou a possibilidade de organização em ciclos, compostos por anos e não mais séries prevendo a progressão contínua; criação de atividades de reforço e recuperação acompanhada depois pela legislação que expandiu essa etapa para nove anos, atendimento a novas emergências, como por exemplo, a violência que está no entorno das escolas ou dentro delas. São previstas muitas modificações, pois a última expansão ocorreu para incluir as crianças de seis anos para compor classes de1º ano ao invés de dar continuidade ao final da 8ª série. Isso significa atender crianças que estavam na educação infantil anteriormente. Como a escola vem se organizando nessas circunstâncias todas? Quais relações são flagradas com o trabalho dos professores e a formação das crianças e adolescentes? O texto de Alda Marin e Marieta Gouvêa Oliveira Penna traz alguns dados de realidades escolares mediante análise das regulamentações relacionadas a tais mudanças, mas principalmente as regulações que a própria escola cria ao interpretar as regulamentações e ou criar suas próprias normas diante das ausências de orientação.
Além dos aspectos organizacionais já mencionados, a investigação da escola, nessa entrada, necessariamente, tem como seus focos, questões sobre o currículo. Paraíso, Vilela e Sales (2012) apontam a centralidade que o(s) currículo(s) possui(em) hoje, apesar das críticas acumuladas tornando-se "objetos cobiçados e desejados"(p.7) pelas suas possibilidades de renovação e de busca de saídas para tudo o que vem sendo criticado. De fato, a centralidade do currículo é fundamental, pois, desde sempre foi elemento básico da escolarização. No entanto, para nós, neste projeto, a pretensão foi a de escapar do mero discurso, qualquer que seja ele, para entender o que é a educação por meio de saber, qual a realidade que vigora, 
quais conhecimentos o constituem e sedimentam-se na prática, que intenções, interesses,valores e relações de poder estão presentes nessa trama, o que se apresenta como conhecimento escolar[...],focalizar os seus significados, na relação com as políticas e reformas de ensino e nas interfaces com todo o trabalho escolar, incluindo estudos e propostas e projetos curriculares[...] (MARIN et al.,2006,p.6).
Nessa direção, o capítulo escrito por Maria das Mercês Ferreira Sampaio e Claudia Valentina Assumpção Gallian é revelador da dedicação e profundidade dos estudos sobre as temáticas citadas, fruto de muitos anos de estudo e de conhecimento sobre as realidades escolares. Ao propor tais temáticas sob o qualificador da complexidade, já enunciam, aos leitores, as interferências de diferentes naturezas e instâncias sobre o currículo, o que nem sempre se faz, porém operam com os detalhes de quem domina profundamente a área, e os desafios a serem enfrentados nas escolhas, com a perspectiva, sempre presente, de se fazer o melhor para orientar o ensino e a aprendizagem.
Por tudo isso, considero que este livro, ora apresentado ao público, contribui para a compreensão da vida escolar, o qual todos nós consideramos fundamental para os que se dedicam, de alguma forma, à educação. As análises com crítica e as ajudas que os estudos trazem auxiliam a percepção de aspectos diferenciados, porquanto são muitas as escolas, bem como permitem que se tenha uma amostra das inumeráveis interferências que existem ou que podemos exercer sobre o ensino, sobretudo sobre as ações docentes na atividade educativa. Espera-se que, ao final, os conteúdos dos capítulos estimulem os leitores ao estudo, percebendo que, embora pareça um trabalho de patchwork, na verdade ele possui um liame: o nosso empenho e compromisso com a Educação, em geral, e com a Escolar e seus agentes em particular. 


Referências

BALL, S. Performatividade, privatização e o pós-Estado do bem-estar. Educação & Sociedade, Campinas: CEDES, v.25, n.89, p.1105-1126, Set./Dez.2004.

BARRETO, R. G. Tecnologia e educação:trabalho e formação docente. Educação & Sociedade, Campinas: CEDES, v.25, n.89, p.1181-1201, set./dez.2004.

BOURDIEU, P. Contrafogos:táticas para enfrentar a invasão neoliberal.rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. 

BOURDIEU, P. Contrafogos:por um movimento social europeu . Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

BUENO, J. G. S.; MARIN, A. J.; SAMPAIO, M. M. F. Escola: entre saberes, professores e alunos. Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: História, Política, Sociedade. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,São Paulo, 2000 (mimeo). 

CANÁRIO, R. O que é a escola?Um olhar sociológico. Porto: Porto Editora, 2005.

DALE, R. Globalização e Educação: demonstrando a existência de uma "Cultura Educacional Comum" ou localizando uma "Agenda Globalmente Estruturada para a Educação"? Educação & Sociedade, Campinas: CEDES, v.25, n.87, p.423-460, Maio/Ago.2004.

DE TOMMASI, L.; WARDE, M. J.; HADDAD, S. O Banco Mundial e as políticas educacionais. São Paulo: Cortez, 1996.

ESCOLANO, A.;VIÑAO FRAGO, A. Currículo, espaço e subjetividade- a arquitetura como programa.Rio de Janeiro:DP&A,1998.

FELDFEBER, M.; OLIVEIRA, D. A. (Comps.). Políticas educativas y trabajo docente- nuevas regulaciones? nuevos sujetos? Buenos Aires: Noveduc,2006. 

FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário Aurélio. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira,s/d. 

LÜDKE, M.; BOING, L. A. Caminhos da profissão e da profissionalidade docente. Educação & Sociedade, Campinas: CEDES, v.25, n.89, p.1159-1180, Set./Dez.2004.

MARIN, A. J. et al.Organização escolar e práticas pedagógicas. Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: História,Política,Sociedade.Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,São Paulo, 2006(mimeo). 

OLIVEIRA, D. A. A reestruturação do trabalho docente: precarização e flexibilização. Educação & Sociedade, Campinas: CEDES, v.25, n.89, p.1127-1144, Set./Dez.2004.

OLIVEIRA, D. A. Mudanças na organização e na gestão do trabalho na escola. In: OLIVEIRA,D. A.; ROSAR, M. F. F. (Orgs.). Política e gestão da educação. Belo Horizonte: autêntica, 2010,p. 127-145.

OLIVEIRA, D. A.;VIEIRA, L. M. F. Trabalho docente na Educação Básica no Brasil. Disponível em: http://www.gestrado.org.br/images/pesquisas/5/relatorio_sinopse_tdebb.pdf 

PENNA, M. G. O. Exercício docente:posições sociais e condições de vida e trabalho de professores.Araraquara/são Paulo:Junqueira & Marin/FAPESP, 2011. 

SAMPAIO, M. M. F. Currículo e sujeitos da escola. In: MOREIRA, A. F. B. ;ALVES, M. P. C. ; GARCIA, R. L. Currículo,cotidiano e tecnologias.Araraquara: Junqueira & Marin, 2005, p.63-89. 

SAMPAIO, M. M. F. ; MARIN, A. J. Precarização do trabalho docente e seus efeitos sobre as práticas curriculares. Educação & Sociedade, Campinas: CEDES, v.25, n.89, p.1203-1225, Set./Dez.2004.

SANTOS, L. L. P. Formação de professores na cultura do desempenho. Educação & Sociedade, Campinas: CEDES, v.25, n.89, p.1203-1225, Set./Dez.2004

WARDE, M. J. Novas políticas educacionais: críticas e perspectivas. Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: História e Filosofia da Educação. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, 1998. 

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SUMÁRIO

  • PREFÁCIO  José Geraldo Silveira Bueno
  • Escolas, organizações e ensino: uma apresentação  Alda Junqueira Marin
  • Estudo 1
  • Absenteísmo docente e organização escolar: um relato de pesquisa Silmar Leila dos Santos
  • Estudo 2
  • A organização da escola pública paulista em função do absenteísmo docente: relações com a frequência e rendimento escolar dos alunos Luiz Carlos Gesqui
  • Estudo 3
  • Organização escolar na Educação Infantil: uso e (des)uso dos lugares da escola Renata Provetti Weffort Almeida 
  • Estudo 4
  • Escolas e letramento informacional Luciana de Souza Gracioso e Gabriela Leandro
  • Estudo 5
  • A experiência da formação na escola: considerações a partir de estudo realizado com alunos do Ensino Médio Carlos Antônio Giovinazzo Jr.
  • Estudo 6 
  • Escola, regulamentações e regulações: algumas consequências para o trabalho docente Alda Junqueira Marin e Marieta Gouvêa de Oliveira Penna
  • Estudo 7
  • Currículo na escola: uma questão complexa Maria das Mercês Ferreira Sampaio e Cláudia Valentina Assumpção Gallian
  • Sobre os Autores 

 

Informações Adicionais

Autor (es) / Organizador (es) Alda Junqueira Marin - org.
Editora (s) Junqueira&Marin Editores
ISBN 978-85-8203-027-1
Área (s) / Assunto (s) Organização do ensino, Didática, Regras de funcionamento escolar, Formação de educadores, Gestão escolar, Currículo, Organização da escola, Pesquisas em escola.
Edição / Ano 1ª / 2013
Nº de Páginas 224
Acabamento / Formato brochura - costurado e colado / 14cm x 21cm

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